quinta-feira, 16 de agosto de 2012


4. O ERVATEIRO


Conforme Francisco Magalhães Filho, o crescimento demográfico dos mercados platino e chileno somado à rigidez da oferta paraguaia de mate contribuíram para elevar os preços desse produto, estimulando as exportações paranaenses, que se intensificam após a Independência (1).

Para aproveitar tal oportunidade era necessário, entretanto, a existência de capitais. No litoral, eles se tornaram disponíveis naquela conjuntura, o que não ocorrera antes, na época dos provimentos do ouvidor Pardinho, cuja recomendação para que se desenvolvesse o setor ervateiro por isso não foi seguida. Os capitais tornaram-se disponíveis em  decorrência das atividades econômicas que ali se desenvolveram. Essas atividades abrangiam não só negócios relacionados à farinha de mandioca e à produção dos engenhos de aguardente e arroz mas também ao “comércio infame”, como alerta José Augusto Leandro (2). O tráfico de escravos, como se sabe, foi proibido pela lei de 7 de novembro de 1831. Mas ele continuou sendo praticado, e Paranaguá desempenhou então um papel importante em tal comércio. A esse respeito, afirma Beatriz Gallotti Mamigonian:

   O trabalho de José Augusto Leandro mostrou que nas décadas de 1830 e 1840 o litoral paranaense abrigou o tráfico ilegal. Havia estrutura logística para o aparelhamento e o desembarque de navios que faziam a rota da costa da África, e cobertura institucional também, graças à corrupção dos oficiais da alfândega e das autoridades judiciais e policiais. Paranaguá era uma base do tráfico atlântico, conduzido entre outros por Manoel Antônio Guimarães e seu irmão, com conexões no Rio de Janeiro. A baía, com as suas reentrâncias e pequenas ilhas e praias, se prestou muito bem ao contrabando. Somente em dois anos de que temos registro, 1837 e 1839, foram desembarcados comprovadamente mais de 4 mil africanos em Paranaguá (3).

J.A. Leandro, no artigo referido, ilustra com o caso mais notório, o do futuro Visconde de Nácar, a conexão existente entre o tráfico de escravos e a formação dos capitais que viabilizaram o desenvolvimento da nossa economia ervateira:  

/.../ o principal exportador de erva-mate no século XIX, e que também era proprietário de engenhos em Morretes, Manoel Antonio Guimarães, foi o principal gerenciador do tráfico de escravos no Paraná no período do comércio ilegal.

O mate passa a ser então atividade preponderante da economia paranaense, e perdurará nessa condição por mais de um século. Como diz Magalhães Filho:  

   A erva-mate domina a economia paranaense até a década de 1930, quando a depressão mundial coincide com a consolidação da cultura do mate na Argentina, fazendo com que se perca o maior mercado para a cancheada paranaense (4).

  Assim durante essa época o mate “será o esteio da economia do Paraná” (5), da base material da sociedade e civilização paranaenses.   

  Segundo ainda Magalhães Filho,

   A produção concentrava-se nos ervais do alto Iguaçu, onde a erva era cancheada (após colhido, o mate é sapecado, para cristalização da seiva; seco a calor nos barbaquás, é depois cancheado, ou seja, triturado em cilindros perfurados), sendo daí levado, primeiro em surrões de couro, posteriormente em barricas, no lombo de animais, pelos três caminhos já mencionados que desciam a Serra do Mar, até os portos sobre o Nhundiaquara (Porto de Cima e Morretes) e dali até os portos de exportação (Antonina e Paranaguá) (6).

Os “três caminhos mencionados” são os que faziam a comunicação entre o primeiro planalto e o litoral, a saber os de Itupava, da Graciosa e do Anhaia (ou do Arraial), importantes no tempo da Comarca de Curitiba e Paranaguá, subordinada à província de São Paulo. A respeito deles, José Carlos Veiga Lopes informa o que segue (7):   

1) o mais antigo (e mais importante) era o de Itupava, aberto antes de 1649. Começava em Porto de Cima. Era chamado “Caminho Velho”, sendo modificado posteriormente por Afonso Botelho em 1770-1772 que, visando viabilizar a “passagem de armamentos para exedições militares”, o fez passar por um lugar chamado “Cadeado”, “onde foi usado o poder do fogo”.  Chegava a Curitiba passando pela fazenda “Borda do Campo” (referida por Saint-Hilaire) e pelo Bairro Alto (a estrada- de- ferro Curitiba-Paranaguá, construída mais de cem anos depois, ultrapassou a Serra do Mar passando pelo Cadeado);   

2) o caminho da Graciosa foi aberto em 1738, estendendo-se desde a Borda do Campo até o porto de Antonina;

3) o caminho do Arraial, o mais meridional dos três, era utilizado principalmente pelos moradores de São José dos Pinhais. “Começava em porto do Rio do Pinto e alcançava o lugar denominado Arraial” (a rodovia atual que une Curitiba a Paranaguá beneficiou-se da indicação de tal caminho, aproveitando a garganta que ele utilizava).  

Afirma ainda o mesmo autor: “Nenhum desses caminhos podia ser transposto por veículos, só animais e pessoas”.

Mas, acrescento eu, o presidente Zacarias, tão logo assumiu a nova província do Império, que se emancipou da de S.Paulo em 1853, priorizou o caminho da Graciosa para torná-lo uma estrada de rodagem, i.e. passível de ser utilizada por veículos puxados por animais.

O presidente Antonio Augusto da Fonseca, em seu relatório de 6 de abril de 1869 (p. 15 a 19), fornece algumas informações interessantes sobre esses três caminhos, que a Província aspirava transformar em estradas, já que eram vitais para as exportações da economia paranaense.  Inicialmente, refere-se à Estrada da Graciosa, cuja construção estava em andamento, ressaltando também a importância econômica de um ramal dela, na região litorânea: 

É esta a obra mais importante e necessária da província: aproximando a capital ao seu  porto natural, o de Antonina, aproxima ao mesmo tempo do mar todos os municípios cuja  exportação se faz nesta capital, que são todos os municípios de serra-acima, exceto em  parte os do Príncipe, e de S. José dos Pinhais /.../   Cumpre porém não limitar esta estrada ao seu tronco da capital a Antonina: a rica vila de Morretes, onde se tem concentrado especialmente o comércio da erva-mate, pede que  seja olhado com a devida atenção o ramal que do lugar chamado S.João se dirige à  mesma vila atravessando a freguesia do Porto de Cima, e da vila vai até o porto dos  Barreiros.  


                        Na sequência, ele fornece informações adicionais sobre as vias de         transporte no litoral:   

Dois são os caminhos que de Morretes se dirigem ao porto de Barreiros, um terrestre, e                                  outro fluvial que é o rio Nhundiaquara. A existência deste, que é o mais frequentado e mais cômodo para a exportação, não  dispensa aquele.O forte declive e pedregosidade do leito do Nhundiaquara dificultam muito a sua subida.  E a descida mesmo se torna perigosa, e às vezes impossível quando há cheia, o que ali sucede com frequência. Esta estrada (a de Morretes a Barreiros) é a continuação do ramal da Graciosa que vai a Morretes, e das estradas do Itupava, e do Arraial. Barreiros é o porto natural da rica vila de Morretes e por onde passa a maior parte da  exportação da província.     

  A propósito, no relatório de 24 de dezembro de 1870, p.32, o vice-presidente Agostinho Ermelino de Leão afirma que Morretes “entretem, por meio de navegação a vapor, relações comerciais em escala elevada com a cidade de Paranaguá”, o que evidencia a importância que então tinha o porto de Barreiros.

Quanto à Estrada do Itupava, o presidente Antonio Augusto da Fonseca, citado acima, assim se manifesta: 

Esta estrada serve para a exportação de parte dos municípios de S. José dos Pinhais e   da capital, e conduz à freguesia do Porto de Cima. É a estrada mais curta da capital para   a marinha.

                        Com relação à Estrada do Arraial, ele afirma o seguinte:

          Por  esta estrada exportam seus produtos os importantes municípios do Príncipe e de S. José dos Pinhais para a vila de Morretes, donde são levados a Paranaguá.          

                        Para o engenheiro F.A. Monteiro Tourinho, essa estrada então “não        era regular” e “apenas dava má passagem a cargueiros”.

Esses três caminhos foram assim percorridos pelos habitantes da Comarca ou da Província do Paraná durante a vida econômica de CJM, que se estende de 1834, no tempo da Comarca, quando implantou o engenho da Glória, até 1877, quando falece. Sua data de falecimento praticamente coincide com a da conclusão da estrada da Graciosa (1876), que inaugura, segundo Temístocles Linhares, uma nova fase da nossa economia do mate. A estrada estimulou a instalação de engenhos no primeiro planalto pelo escoamento mais fácil da produção para os portos de Paranaguá e Antonina. Mas CJM, que se antecipou a essa vinda para o planalto curitibano, ainda em condições precárias de transporte, pertence à fase anterior (8).

Um papel importante no desenvolvimento dessa atividade econômica coube a Francisco de Alzagaray, um argentino que chegou a Paranaguá em 1820. Ele teria transmitido aos nossos homens de negócios as formas adequadas de preparar, beneficiar e acondicionar o produto para melhor atender a demanda dos mercados argentino e uruguaio (9). Em 1826, como vimos, a erva-mate já representava 70% das exportações paranaenses. E em 1829, conforme um ofício da Câmara de Paranaguá à de Curitiba, a erva-mate já é considerada o “melhor e o mais forte ramo do comércio desta Comarca”. O referido ofício, transcrito em Vieira dos Santos (10), pedia providências para que se eliminasse a adulteração da erva-mate com outras plantas, o que implicava em preços mais baixos no comércio internacional, problema esse que persistirá ao longo do tempo e será sempre motivo de queixa e de reivindicação de ações do governo por parte dos exportadores.

  Afirma Cecília M. Westphalen:

   Conforme Vieira dos Santos, foi Alzagaray o primeiro a estabelecer uma fábrica de beneficiamento de erva-mate em Paranaguá /.../. Vindo também do Rio da Prata, e chegado pouco depois de Alzagaray, o catalão Manuel Miró igualmente montou, no litoral, um estabelecimento de preparar erva-mate.

  Os engenhos de soque crescem em número. Começam

a deslocar-se em direção às fontes de produção de erva. Morretes será a freguesia onde irão localizar-se os engenhos porque situada ao pé da serra. Em 1828 estavam já em funcionamento em Morretes 13 fábricas de erva-mate” /.../ (11).

CJM surge para a vida empresarial nos primórdios dessa nova atividade econômica. Dadas as perspectivas promissoras do mercado platino, decide instalar em 1834 engenho de erva mate no planalto curitibano (seguindo o exemplo de Fidelis da Silva Carrão e José Inácio de Loyola, cujo empreendimento conjunto antecedeu o seu em dois anos). Naquele ano, CJM tinha apenas 17 anos, pois nasceu, como vimos, em 1817. É possível que seu pai, Florêncio José Munhoz, constatando as perspectivas promissoras do mate, tivesse participado dessa decisão, ou mesmo fosse o principal responsável por ela, deixando ao filho a tarefa de gerenciar o empreendimento no planalto, enquanto ele permaneceria no litoral, desenvolvendo as suas atividades econômicas. Na região litorânea, naquele ano de 1834, muitos engenhos de erva-mate já estavam instalados. A partir de 1820, segundo Temístocles Linhares, Paranaguá e depois Antonina e Morretes tornaram-se “os centros de maior indústria e expansão comercial do produto” (12). Em Morretes a busca da utilização da força hidráulica para mover os engenhos causou forte disputa judicial entre os interessados pelo uso das águas ali existentes. Acredito que Florêncio/Caetano, pretendendo instalar mais um engenho desse tipo, e vendo a dificuldade de concretizar sua intenção em Morretes, devido a essa disputa entre os interessados, decidem instalá-lo serra acima, junto ao rio Belém, onde não havia concorrentes, dado o seu caráter pioneiro.

Como assinala Temístocles Linhares, em 1834 já se comprova a utilização da energia hidráulica em Morretes por uma planta de encanamento existente no Arquivo Público de São Paulo, destinado a servir a sete engenhos. Ele identifica essa planta como “a dos encanamentos de água do rio Guarumbi, que dera origem a fortíssima lide forense” referida por Vieira dos Santos, o qual chamou por isso 1834 de ano “memorável” em sua “Memória Histórica da Vila de Morretes e do Porto Real” (p.307). Ora esse ano é justamente aquele referido pela nossa historiografia como o da instalação do engenho de CJM.  A conjuntura em Morretes explicaria assim a decisão da instalação do engenho da Glória em Curitiba.  

Ainda de acordo com Temístocles, Alzagaray em Paranaguá e Miró em Morretes foram os iniciadores da segunda fase da economia do mate (1820-1876), “introduzindo na industrialização a força hidráulica, aproveitada em toda a sua plenitude em Morretes em 1835, depois de resolvida a pendência judiciária /.../” (13).

  C.M.Westphalen assim se refere a CJM na obra antes citada:

   O progresso do comércio ervateiro fez surgir também, serra acima, os engenhos de soque. Em 1832, Fidelis da Silva Carrão, associado a José Inácio de Loyola, já proprietários em Morretes, organizam um engenho na vila de Curitiba, mais próximo aos ervais e, pouco depois, em 1834, Caetano José Munhoz fundava o engenho da Glória (14).

  Após o seu, instalam-se “serra acima” outros engenhos de erva mate. Em 1836, o futuro sogro de Caetano, João Gonçalves Franco, tem o seu requerimento solicitando concessão de terras e águas para a instalação de engenho de soque de erva-mate despachado pela Câmara Municipal de Curitiba (seu nome consta dentre os 21 requerimentos com idêntica solicitação despachados por aquela Câmara) (15).

  João Gonçalves Franco torna-se sogro de CJM em 1840, quando ele se casa com D. Francisca Cândida de Assis Franco.  A residência e engenho de seu sogro -- pessoa conceituada na comunidade -- localizavam-se próximos à atual praça Zacarias e ao rio Ivo, ao contrário do engenho de CJM, situado no Alto da Glória, em frente à chácara de Nhá Laura Borges, em cuja área hoje se localiza o Colégio Estadual do Paraná. Seu engenho era à base de energia hidráulica, mediante o aproveitamento das águas do rio Belém. Posteriormente, em 1872, ele instalará um segundo engenho ali, a vapor, o primeiro desse tipo instalado em Curitiba.

  A elevação dos preços, referida por Pedro Calil Padis (16),  estimula esses pioneiros a instalar seus engenhos do mate “serra acima”, em região mais próxima dos ervais (do alto Iguaçu) (17). A respeito disso afirma Newton Carneiro:  

   A margem de lucro chegou a propiciar a instalação de engenhos até em Curitiba, embora as condições e o custo do transporte – antes da estrada da Graciosa – onerassem sobremaneira a produção elaborada no planalto. Assim, em 1832, Fidelis da Silva Carrão, associado ao Tenente José Inácio de Loyola, põe a funcionar o primeiro soque de erva construído em Curitiba. Dois anos depois, o Coronel Caetano José Munhoz põe a trabalhar o seu “Engenho da Glória”, que deu nome ao bairro em que se instalou, e que foi vendido -- quase meio século depois -- ao Comendador Francisco Face Fontana, que o converteu nas “Imperiais Fábricas de Erva-mate”, conforme orgulhosamente fazia constar em suas etiquetas (18).

  Em vez de matéria prima, a carga transportada agora será da erva-mate beneficiada, pronta para exportação via comerciantes estabelecidos no litoral, um dos quais, inclusive, era o pai de CJM, Florêncio José Munhoz, cujo nome já aparece em relação de exportadores de erva-mate de Paranaguá em 1840 (19). A erva era acondicionada em surrões de couro, e transportada em lombo de burro para os portos de Antonina ou Paranaguá, a fim de ser exportada para a Argentina, Uruguai ou Chile.

Com o tempo ocorre uma melhoria gradativa da via de comunicação de Curitiba com o litoral. Inicialmente os escravos transportavam a carga nas costas; depois a carga era transportada em lombo de burro e finalmente, com a conclusão da estrada da Graciosa – vinte anos depois de iniciada a sua construção pelo governo Zacarias (!) -- os imigrantes eslavos a transportarão em carroções por aquela estrada. A forma de acondicionamento do mate também evolui, do surrão de couro à barrica de pinho, pois a araucária é abundante na região dos ervais. 

Em Curitiba, os ervateiros enfrentaram uma realidade diferente da do litoral. Aqui, segundo David Carneiro,

   O número de escravos era pequeno e os braços faziam falta sem que a indústria fosse tão grandemente remuneradora que se pudesse importar africanos. Mesmo assim o caso do incidente Cormoran parece indicar que Paranaguá, havia já algum tempo, constituíra-se mercado comprador de carne humana.
  Claro que o escravo era usado para apiloar, ressocando sem nenhuma espécie de controle, a erva já cancheada. Para tanto, a dificuldade de braços determinou o uso dos monjolos e logo o de pilões mecânicos rudimentares, construídos sem dificuldades de maior vulto, com força hidráulica também rudimentar.
   Isso pôde ser executado, graças ao aproveitamento dos rios Ivo, Belém e Barigui. A energia humana passou ao controle e por difícil e cara, teve melhor emprego. Apesar da precariedade das rodas d’água, elas moveram os pilões e multiplicaram a produção (20).

Em 19 de dezembro de 1853, o conselheiro Zacarias de Góes e Vasconcelos instala a nova província do Império. CJM, então com 36 anos, era uma das personalidades de destaque daquela comunidade. Certamente por isso, coube a ele oferecer a Zacarias uma recepção em sua residência, junto ao engenho da Glória. 

  De acordo com relatório do presidente Zacarias, havia no Paraná, em 1854, mais ou menos 90 engenhos de socar erva (21). 





J.L.Palière- tropa carregando mate de Curitiba para o litoral, 1860
Fonte: http://www.gilsoncamargo.com.br/blog/?p=179

                                                               *

Por uma portaria do Cons. Zacarias, de 7 de outubro de 1854, CJM foi nomeado membro de uma comissão encarregada de dar parecer sobre “o modo mais eficaz de impedir a falsificação de erva-mate”. Já faziam parte dessa comissão Joaquim José Pinto Bandeira e Manoel Antonio Pereira, conforme o ofício que CJM enviou ao presidente da província tomando ciência da nomeação, e que hoje se encontra no Arquivo Público do Estado (22). 

  Tratava-se de um problema frequentemente discutido, que prejudicava o conceito de nosso produto no mercado externo, por afetar a sua qualidade. Certamente o parecer da comissão resultou no Regulamento que Zacarias baixou em 6 de dezembro do mesmo ano, mencionado por Romário Martins em “Ilex Mate”, que assim  o resume:
 
   Esse Regulamento determinou época para a fatura do mate, permitindo-a em os meses de fevereiro a agosto, inclusive, e proibindo-a nos demais meses; estabeleceu a obrigatoriedade de cobertura dos carijos e da malhada sobre forro conveniente, de modo a não se misturar a erva com terra ou outra qualquer matéria estranha ao produto; proibiu que à erva-mate genuína se juntasse erva alguma de outra qualquer espécie; e exigiu que a sapeca se fizesse no mesmo dia do corte, para impedir a fermentação, e que fosse feita a malhação até três dias, no máximo, depois de carijada, e, após este processo, encestada e envolvida em forro isento de umidade e não em folhas de xaxim ou samambaia, como era de uso; -- tudo sob pena de multa de 50 a 100$000, extensiva àqueles que comprassem erva viciada por alguma das causas mencionadas e no dobro aos que fizessem encomendas do produto com mistura de outra qualquer erva estranha à espécie considerada genuína (23).


  Dois anos depois, em 1856, CJM, então deputado, participa da sessão da Assembleia Provincial que aprovou um projeto relativo à restrição do fabrico da erva-mate, definindo normas para o corte da erva. Com esse projeto, segundo o DD, buscava-se prevenir o abuso desse corte e a falsificação (24).

  Mas o problema da falsificação-- a mistura da verdadeira erva com “folhas perniciosas”-- persistirá ao longo do tempo. Uma década e meia mais tarde, em anexo ao relatório do vice-presidente Manoel Antonio Guimarães de 17 de fevereiro de 1873, p.18, o inspetor da Tesouraria Provincial destaca esse problema ao tratar do setor. Afirma que o regulamento de 6 de dezembro de 1854, alterado por dispositivos legais de 1862 e 1872, “é letra morta e não se acha em execução”. Defende maior fiscalização da erva ainda nos cargueiros, “quer na ocasião em que estes forem expostos à venda, quer mesmo depois de comprada e recolhida aos engenhos, estabelecendo-se penas severas e exequíveis aos contraventores, quer estes sejam os vendedores quer os compradores”. E arremata assim a argumentação, interessante por mostrar a concepção ideológica desse governo relativa às relações entre Estado e livre iniciativa, e ao papel que devia caber àquele:

E nem se diga que isso trará como consequência uma coação à liberdade da indústria e do comércio. Não. Se é uma verdade que a indústria e o comércio tem direito à liberdade, é também uma verdade que essa liberdade está circunscrita à esfera do justo e do honesto para que não degenere em licença, e que o Estado tem, inquestionavelmente, o direito de limitar o abuso em favor da própria indústria e em proveito do direito social.

Em 1875, CJM é citado como um dos poucos beneficiadores honestos de erva-mate. De modo geral, a erva paranaense exportada era considerada de má qualidade, pela ocorrência de muita fraude no processo produtivo (25).
 
  Ainda em 1856, o DD afirma que CJM mantinha um armazém na rua do Comércio, atual Marechal Deodoro. E em 1861, CJM é mencionado pelo jornal, “en passant”, como co-proprietário da tipografia onde ocorreu um evento referido pelo Chefe de Polícia (26). Mas esta não devia ser utilizada ainda para imprimir os rótulos das embalagens de mate, pois as barricas de pinho só serão adotadas mais tarde, na década de 1870 (27).

  Segundo Francisco Negrão, na “Genealogia Paranaense”, as marcas de CJM “eram das mais acreditadas e a marca “Caetano” alcançou grande popularidade, e após a sua morte foi vendida por alto preço” (28).. Algumas de suas marcas são citadas por A.J. Macedo Soares, em publicação de 1875: “CJM (marca chilena, erva grossa)/.../; Munhós,  Munhoz  e Alfredo (erva fina) (29). 

  Por outro lado, Louis Couty, que percorreu a região da erva-mate e avaliou o setor para o ministro da Agricultura e Comércio do Império, afirma em seu relatório, publicado em 1880:

   Ces qualités, dites bonnes, moyennes et ordinaires, sont du reste très variables avec l’engenho, et les différences accéssoires de préparation qui y sont acceptées: aussi fait-on sur les marchés de vente une très-grande différence de valeur et de prix suivant les marques de fabrique et les marques Amadeu, Munhoz, Ildefonso Correia, d’autres encore, sont plus spécialement recherchées. Il arrive aussi qu’une fabrique se consacre presque exclusivement à produire telle qualité pour un seul marché ou, au contraire, le même engenho a plusieurs marques très-différentes et vend à la fois à Buenos-Ayres, au Chili et à Montevideo (o negrito é meu, DVE) (30).
.

  Aparentemente, CJM se enquadra neste segundo caso, encaminhando a produção de seu engenho para diferentes mercados. Como se verá adiante, as marcas Amadeu e Munhoz pertenciam a CJM.

  Mais adiante, Couty afirma que CJM e alguns outros industriais resignavam-se a perder 25 a 35% do peso total da matéria prima para assegurar uma qualidade maior do seu produto:

/.../ et les fabricants qui comme Mr. Ildefonso, Padeira, Munhoz etc se résignent à perdre 25 à 35% du poids total, pour avoir de meilleurs produits, en réalité payent le maté au cabocle 1/3 en plus de ceux qui utilisent tout (31).

  Em 1864, o jornal publica o seguinte despacho da presidência, de 27 de maio (o presidente da Província  então era José Joaquim do Carmo):

              Ao tenente-coronel Caetano José Munhós
Tendo o Dr. Alexandre Bousquet, vice-cônsul da França em Paranaguá, de apresentar ao ministro dos negócios estrangeiros e ao do comércio daquela nação, um relatório circunstanciado dos produtos comerciais, artes e indústria desta província, como comunicou-me em ofício de 11 do corrente, e desejando por essa ocasião tentar a introdução da erva-mate na França, onde é mui pouco conhecido o uso deste produto, convém que vm. atendendo ser essa tentativa toda em proveito deste ramo de comércio da província, me remeta, em pequena quantidade, uma amostra convenientemente acondicionada da erva preparada em seu engenho, da melhor em qualidade, a fim de que eu possa satisfazer o pedido do mesmo Dr. Bousquet (32). 

  Prontamente, o tenente coronel CJM atende a esse pedido, pois no “Expediente da Presidência” de 31 de maio consta o seguinte despacho:

   Ao tenente-coronel Caetano José Munhós, acusando o recebimento de seu ofício de 30 do corrente acompanhado de duas latas contendo erva-mate preparada em seu engenho, e agradecendo-lhe a prontidão com que satisfez o pedido da presidência (33).

  Mas o mate nunca chegaria a afirmar-se no mercado europeu...

  Em 1870 o governo brasileiro determina a participação da Província na exposição internacional de Cordoba, da “confederação argentina”, a ser realizada em outubro daquele ano (34). E CJM, dada a sua importância no setor, juntamente com os outros dois ervateiros mencionados abaixo, é convidado a preparar amostras de seu produto a fim de serem para lá encaminhadas.

  No “Expediente da Presidência” de 3 de agosto,  que o jornal publica na edição do dia 27, consta este despacho (o presidente da Província em exercício era então Agostinho Ermelino de Leão):

    Ao tenente coronel Caetano José Munhós- Rogo a vm. queira preparar, a fim de serem enviadas à corte no próximo vapor, para figurarem na exposição de Cordova, algumas amostras de erva-mate e chá das melhores qualidades e convenientemente acondicionadas, as quais deverão ser entregues na secretaria desta presidência até 14 do corrente. Espero que vm., como filho da província, e que deseja a sua prosperidade, fazendo-a conhecida nos países estrangeiros, acederá a este pedido (35).

A mesma solicitação é feita aos majores Manoel José da Cunha Bittencourt (cujo engenho era próximo ao de CJM, estabelecido onde hoje se localiza o Círculo Militar) e Vicente Ferreira da Luz (Vicente, que era sogro do Dr. Murici, será sogro também de Carolina, filha de CJM. Seu engenho era junto ao rio Barigui). Esses três senhores de engenho deviam ser aqueles que mais se destacavam na Curitiba de 1870.    
  
  Em edição posterior do jornal, consta o seguinte despacho no “Expediente da Presidência” de 12 de agosto:

    Ao tenente coronel Caetano José Munhós—Acuso o recebimento do ofício de vm, datado de 10 do corrente, transmitindo, para figurarem na exposição de Cordova, 4 volumes como amostras de erva mate de três qualidades, por vm preparada. A maneira por que foi por vm acolhido o pedido que lhe dirigi em data de 3 deste mês demonstra o louvável interesse que vm toma pelo progresso  da província, digna de ocupar, atenta as riquezas naturais que encerra e a uberdade de seu solo, um lugar importante entre as demais do Império. Por esta prova de patriotismo apresento a vm meus agradecimentos e meus protestos de estima e consideração (36).


  Na edição de 24 de agosto de 1870, fica-se sabendo quais são as “três qualidades” de erva-mate. Além dessas amostras, o jornal informa que CJM encaminhou ainda quartzo roxo à exposição. Esses itens constam do “Catálogo dos produtos naturais e industriais remetidos à exposição de Cordova” aí publicado: 

Nº 6- Dito (=quartzo) roxo. Guarapuava.
Nº 130- Dita (=erva-mate) fina. Curitiba.
Nº 131- Dita entre fina. Curitiba.
Nº 132- Dita grossa. Curitiba (37).

 
O vice-presidente Agostinho Ermelino de Leão, referindo-se a essa exposição em seu relatório de 24 de dezembro de 1870, p.17-18, diz que, pela escassez do tempo, não pôde contar com a contribuição dos municípios do interior e da marinha. Apenas pôde “dirigir-se a algumas pessoas do município da capital que, de bom grado, e mesmo com louvável empenho, prestaram-me valiosa coadjuvação”. 141 objetos (“produtos naturais e de indústria”) foram encaminhados para essa exposição.

O relatório do presidente Lamenha Lins, apresentado à Assembleia Legislativa Provincial em 15 de fevereiro de 1876, que o DD vem publicando, por partes, refere-se à exportação de longo curso e por cabotagem. No primeiro caso, a “erva fina” foi exportada para o Rio da Prata e a “erva grossa”, para o Chile. No segundo, a exportação (somente para o Rio de Janeiro) foi de “erva em folhas” e “erva fina” (38).   

  Em 12 de junho de 1872, o “Noticiário” do jornal assinala o pioneirismo de CJM (juntamente com seu irmão e sócio) em implantar engenho a vapor em Curitiba:  

   Os Srs. tenente-coronel Caetano José Munhós e major Bento Florêncio Munhós acabam de montar um engenho movido a vapor, destinado ao soque de erva-mate.
É um melhoramento importante este que acaba de receber a principal indústria da província.
  Tivemos ocasião de examinar o mecanismo empregado e admiramos a facilidade com que colhem-se como produto 150 arrobas de erva fina, nas poucas horas do dia.
  Parecem-nos salientes as vantagens resultantes do novo sistema.
  Dando o mínimo de 300 rs., líquidos de despesas, para cada uma arroba de erva fina, temos em 150 arrobas a soma de 45$000 diários.
  Já é um lucro que compensa largamente o trabalho.
 Oxalá outros sigam o exemplo dos Srs. Munhós, dignos de nossos encômios pelo aperfeiçoamento que acabam de introduzir no vetusto sistema de soque à mercê de água que, ora faltava, ora era demasiada (39).  


         Verifica-se assim o pioneirismo de CJM em implantar engenho a vapor em Curitiba, ao contrário do que afirma Ermelino de Leão, que em seu “Dicionário Histórico e Geográfico” dá anterioridade nessa questão à Fábrica Tibagy do Barão do Serro Azul, a qual só será instalada em 1878 (40). Romário Martins percebeu em tempo o equívoco e na Corrigenda que incluiu na última página de seu livro “Ilex Mate”, reconhece a anterioridade de CJM, com relação ao Barão do Serro Azul, quanto à “aplicação do vapor aos engenhos de mate”.  David Carneiro afirma textualmente: “O primeiro industrial a usar energia térmica em substituição às rodas d’água, precárias, foi o coronel Caetano José Munhoz” (41).     
CJM foi o primeiro a instalar tal tipo de engenho em Curitiba, mas não o foi no Paraná, pois já em 1859 o presidente da Província Francisco Liberato de Matos informava em seu Relatório à Assembleia Legislativa a existência em Antonina de um engenho a vapor. Cecília Westphalen afirma que quem o instalou foi João Antônio Pereira Alves, com uma produção diária de 400 arrobas (42).

  No mesmo ano de 1872, em 28 de outubro, é inaugurado em Curitiba outro engenho de socar erva-mate a vapor, de propriedade do major Luiz Manoel Agner. Ele está instalado à margem da “estrada de Mato Grosso” (atual rua Comendador Araújo), nas imediações da capital:

   É o segundo estabelecimento desta natureza que se monta nesta cidade, e que, naturalmente, estimulará outros empreendedores a iguais cometimentos na indústria principal da província.
  O Sr. Agner empregou em seu engenho uma máquina do sistema inglês, diversa da que o Sr. tenente coronel Munhós aplicou ao seu estabelecimento, como há meses noticiamos, e que, aliás, tem correspondido à sua expectativa.
  Os proprietários de engenhos tem, pois, estes dois sistemas de máquinas a confrontar, para, com os dados da experiência já feita, pronunciarem-se pelo que provar melhor entre nós (43).

  De acordo com Temístocles Linhares, os motores a vapor nos engenhos, que substituíram a força hidráulica, eram

alimentados a lenha e complementarmente com resíduos (ou pauzinhos maiores) do próprio mate, dos quais, em outros tempos, se faziam verdadeiras montanhas nos pátios ou nos fundos das fábricas, sendo grande parte desses resíduos aproveitada como adubo, depois de fermentados ao sol e à chuva (44).

                                                 *

  CJM participou da Exposição Nacional de 1873, onde expôs mate. Obteve o prêmio de 2ª. classe (medalha de cobre). Outros expositores da Província, do setor ervateiro, premiados da 2ª. classe foram (após os nomes constam os produtos que expuseram): Júlio C. Bellache- licor de erva-mate; Luiz Manoel Agner- mate; Manoel Miró- mate; Vicente Ferreira da Luz- mate. Os premiados da 1ª. classe (medalha de prata) foram: Aurélio Joaquim Ribeiro de Campos- mate; José Correa de Bittencourt- mate em pó e Cel. Manoel Gonçalves Marques- mate em folha. A Exposição mostrou também outros produtos, reveladores do grau de desenvolvimento até então alcançado pela economia provincial: amostras de pinho, madeiras, obras de torno, açúcar, aguardente de cana, cerveja, maisena, farinha de milho, polvilho de farinha de mandioca,  farinha de centeio, araruta, chapéus, sabão, cera branca em lâminas, baixeiro de lã nacional, botinas de bezerro, fumo, chá, algodão, legumes etc (45) (“baixeiro”, segundo o dicionário Aurélio, é a  “manta que se coloca por baixo da sela”).     

  CJM e outros empresários da província do Paraná participaram também da Exposição Nacional realizada no Rio de Janeiro e aberta em 1º de janeiro de 1875. Expôs aí “erva-mate fina em surrão” e “erva-mate grossa em surrão”. Outros expositores paranaenses do setor ervateiro foram o major Vicente Ferreira da Luz (“erva-mate em cartucho”), o ten-cel Manoel José da Cunha Bittencourt, Aurélio Joaquim Ribeiro de Campos e o ten-cel José Correa de Bittencourt (estes três expuseram “erva-mate fina em surrão”). Vale salientar ainda que o major Antônio de Paula Xavier, pai da segunda esposa de CJM, expôs “vinho verde”, “vinho de mel de abelha” e “vinagre de mel de abelha” (46).

  Nesse mesmo ano de 1875, CJM participou ainda, juntamente com outros expositores da província do Paraná, da 4ª. Exposição Nacional, que seria realizada “na Corte” (Rio de Janeiro) em 7 de setembro de 1875, preparatória da participação brasileira na Exposição Internacional de Filadélfia, EEUU, em 1876, aberta em 19 de abril, que contou com a presença de D.Pedro II. Nesta última, CJM obteve 1 medalha, 1 diploma e 1 certificado (47). 

  Na relação dos premiados dessa 4ª.Exposição Nacional, CJM consta dentre os que receberam “Medalha de Progresso”. Além dele, também  receberam esse prêmio o major Vicente Ferreira da Luz, Ildefonso P. Corrêa, Luiz Manoel Agner e Frederico Virmond. Uma comissão, na Corte, embarcou os produtos expostos para a Exposição de Filadélfia (48).  

  A 4ª. Exposição Nacional, por sua vez, foi precedida de outra, de caráter provincial, inaugurada em 25 de abril de 1875, conforme menção feita no Relatório que o presidente Lamenha Lins apresentou à Assembleia Legislativa em 15 de fevereiro de 1876 (49). 

                                                 *

  Em 1874, quando não havia ainda nenhum banco nosso aqui instalado,  o governo imperial decide criar, pelo decreto nº 5.594, de 18 de abril desse ano, nas capitais de províncias, “caixas econômicas e montes de socorro”, instituição que já existia na corte (50). CJM é então nomeado, juntamente com outros representantes de destaque do setor ervateiro, membro do conselho fiscal dessa entidade, relativa à província do Paraná, assim noticiado pelo DD de 6 de fevereiro de 1875- p. 2:

   Por decreto  de 23 do mês de janeiro, do ministério da fazenda, foram nomeados para o conselho fiscal da caixa econômica e monte de socorro desta província:
Presidente, o bacharel José Lourenço de Sá Ribas.
Membros: Ignacio José de Moraes, Manoel José da Cunha Bittencourt, Caetano José Munhós e Vicente Ferreira da Luz (51).

Esses integrantes do conselho fiscal também são citados no relatório do presidente Frederico Abranches de 15 de fevereiro de 1875, p.31-32.

Ignacio José de Moraes, mencionado acima, dirigirá esse conselho posteriormente, até 10 de março de 1879, quando solicitou exoneração, por haver assumido o cargo de “Coletor das rendas gerais e provinciais” da capital. É o que informa o relatório do presidente Manuel Pinto de Souza Dantas Filho de 4 de junho desse ano, p. 25. O mesmo presidente, no relatório de 16 de fevereiro de 1880, p. 81, refere-se ao falecimento do tenente-coronel Ignacio, “coletor desta capital”, e a consequente nomeação de Luiz Antonio Requião para esse cargo em 13 de junho de 1879 (como se verá adiante, Ignacio foi também colega de CJM na Guarda Nacional de Curitiba, onde ambos detinham o posto de tenente-coronel. Foram excluídos dela pelo mesmo decreto, em 1869).

                                                             *

  Em 23 de setembro de 1875, o presidente Lamenha Lins promove reunião em palácio “com o fim de tratar-se da criação nesta província de uma associação de aclimação, filial à da corte”. Nessa oportunidade aprovaram-se os estatutos da nova associação, que tinha por objetivos:

§ 1º- A introdução, aclimação, domesticação, propagação e melhoramento das espécies, raças ou variedades de animais ou vegetais, quer suscetíveis de emprego útil, quer de simples acessórios ou de ornamento.
§ 2º- O aperfeiçoamento, domesticação e multiplicação das espécies, raças ou variedades de animais ou de vegetais indígenas (52).

  Assim, a Associação devia “aclimar” em nosso território animais e vegetais úteis, de procedência externa (53).  Várias edições do DD, posteriores  a setembro de 1875, mencionarão a distribuição de sementes e mudas feitas pela Associação aos “colonos e mais agricultores”. São mencionadas sementes de juta, “a fim de ensaiar a sua cultura nesta província” (54), sementes e mudas de oliveira (55) e sementes de trigo e eucalipto (56). Foram distribuídas sementes vindas do Chile, Amazonas e outros lugares (57).

  Naquela reunião inicial definiu-se a diretoria da nova associação. O tenente-coronel CJM foi escolhido seu tesoureiro, cabendo a presidência ao Dr. Agostinho Ermelino de Leão. O secretário geral era o Dr. João José Pedrosa. Alfredo Caetano Munhoz, filho de CJM, era um dos três “adjuntos do secretário”. Foram escolhidos ainda oito conselheiros da entidade. O DD realça o fato de que a reunião promovida pelo presidente Lamenha Lins (que era do partido Liberal) não fez “distinção de matiz político” (58).  

  A presidência mandou colocar (provisoriamente) à disposição da diretoria da Associação Paranaense de Aclimação uma das salas da casa destinada ao Museu da capital, conforme DD de 27 de outubro de 1875- p.1. A casa localizava-se no Largo já então denominado “do Conselheiro Zacarias” (59). Na p.2 daquela mesma edição do DD de 1875 consta despacho da presidência à Tesouraria Provincial mandando entregar ao tesoureiro da Associação, tenente-coronel CJM, a quantia de 1:000$000 (um conto de réis) “para ser aplicada às despesas com a fundação de um jardim de aclimação nesta capital”. Posteriormente, consta no jornal outro despacho à mesma Tesouraria “mandando entregar ao tesoureiro da sociedade Paranaense de Aclimação mais 1:000$ resto da quantia concedida como auxílio à mesma, no § 19 do art. 1º da lei nº 406 de 13 de abril de 1874 (60). Como se vê, CJM, pela sua honestidade, gozava de toda a confiança do presidente Lamenha Lins.

  O tesoureiro CJM será mencionado também no DD de 18 de junho de 1876-p.3, que se referiu à reunião da Associação Paranaense de Aclimação,  havida em 1º de junho, às 6 horas da tarde, no palácio do governo, com a presença do presidente Lamenha Lins, do Dr. Agostinho Ermelino de Leão e de outras pessoas, inclusive Alfredo Caetano Munhoz e CJM. Este, conforme o jornal, “propôs que se criasse um lugar de procurador ou agente que se encarregasse do recebimento de mensalidades dos sócios mediante uma percentagem razoável”, o que foi aprovado. Na mesma reunião, nomeou-se uma comissão para apresentar orçamento de um jardim de aclimação, que se queria tornar realidade. Era esse aliás o objetivo da reunião. Também foi nomeada comissão para estudar a plantação de amoreira, “a fim de se conhecer se pode aclimar-se o bicho da seda nesta província” bem como comissão para estudar a cultura do trigo na província.

Quanto ao “projetado jardim”, Lamenha Lins espera que ele, “além da utilidade que prestará à associação, será um ponto de agradável recreio para os habitantes desta capital”, evidenciando assim a sua preocupação urbanística com Curitiba (o Passeio Público só seria criado em 1886). Afirma ainda, em seu relatório de 15 de fevereiro de 1876, p. 106, que “a associação trata da criação do respectivo jardim, para o que já lhe foi concedido o terreno necessário e em lugar apropriado”. Esse terreno deve ser aquele mencionado abaixo, referido na sessão realizada na Câmara Municipal de Curitiba dez anos mais tarde. Localizava-se defronte ao hospital da Santa Casa de Misericordia (atual praça Rui Barbosa).   

Em seu relatório de 15 de fevereiro de 1877, p. 139, o presidente Lamenha Lins refere-se novamente à Associação Paranaense de Aclimação, que “funciona em uma das salas do edifício do museu”, este inaugurado em 25 de setembro de 1876, como afirma.  Ele registra que a Associação, no período do relatório, “distribuiu 25 barricas de sementes de trigo vindas do Rio da Prata” e que “ela já tem nova porção de sementes para distribuir no corrente ano”.       


A Associação Paranaense de Aclimação continuou atuante após o falecimento de CJM em 1877. Mas segundo o presidente Taunay, em seu relatório de 3 de maio de 1886, p. 86, de 1879 a 1885, ela permaneceu “em estado de completo adormecimento e apatia”.  Taunay  afirma que a reativou em 1885, promovendo a distribuição de sementes de quina calisaia, da qual se extraíam “os elementos quinínicos” de um sulfato útil para enfrentar “as febres palustres”. Também recomendou diversas ações à Associação, inclusive que ela obtivesse do governo imperial sementes de trigo para distribuição junto aos núcleos coloniais, que se dedicavam apenas à cultura do centeio. No relatório, Taunay elogia a criação dessa Associação, aprovada pelo presidente Lamenha Lins em 1875, a cuja memória ele presta “homenagem de admiração”.

Conforme ata de uma sessão da Câmara Municipal de Curitiba realizada em 1885 e publicada no jornal, tal Associação desistiu de um terreno no Largo da Misericórdia em benefício da Irmandade Senhor Bom Jesus do Perdão. Em troca, a Câmara lhe concederia um outro terreno (61). Notícia publicada no DD de 9 de janeiro de 1886- p.3 informa que a Associação distribuirá “no domingo próximo, em um dos salões do Museu Paranaense” sementes de trigo, fumo de Havana, quina-calisaia, palmeira real, algodão “de diversas qualidades”, sagu e dendê. 

                                                 *

  A página 4 do jornal “Dezenove de Dezembro” de 29 de dezembro de 1875 é ocupada exclusivamente pelo seguinte conteúdo, em que se destacam as três marcas registradas por CJM na Conservatória do Comércio, e também se evidencia a proximidade entre ele e o futuro Visconde Nácar, pois este chega a ser seu procurador em Paranaguá. Manoel Antonio Guimarães (que recebeu o título Barão de Nácar em 1876, e de Visconde em 1880, depois que hospedou, nesse ano, D.Pedro II em Paranaguá) (62), era um dos compradores da erva-mate beneficiada nos engenhos de CJM:


   Modelo das marcas de que usa, nos volumes de erva-mate de suas fábricas, o abaixo assinado negociante na cidade de Curitiba, província do Paraná.


Marca:             Marca:                         Marca:
Munhoz           Alfredo                         Amadeu
                         
                                      Contra marca:
                                      Caetano J. Munhoz
              Curitiba, 1 de dezembro de 1875- Caetano José Munhoz
                                      ---------------------------------------
   Certifico que o presente modelo foi apresentado ao registro hoje às doze horas do dia. A petição que o apresentou é desta data Seu proprietário é Caetano José Munhoz, negociante, domiciliado na cidade de Curitiba desta província e foi representado por Manoel Antonio Guimarães, procurador bastante, que solicitou o registro.
   Estas marcas são destinadas para volumes de erva-mate.
   Conservatória do comércio da província do Paraná, na alfândega de Paranaguá, 15 de dezembro de 1875 --. Servindo de oficial, Cyreno José Pereira.
   Por despacho do Sr. conservador do comércio, desta data, fica registrada a fls. 193 v do livro respectivo e paga de emolumentos dois mil réis.
   Em 15 de outubro de 1875 -- Servindo de oficial da conservatória, Cyreno José Pereira.
                       Rs 2$000 Pg. dois mil réis de emolumentos.
                        Alfândega de Paranaguá, 18 de dezembro de 1875—Souza – J. de Castro, escriturário.




              
Visconde de Nácar



***

                         
Eduardo Spiller Pena, em “O Jogo da Face” (63), refere-se à importância do trabalho escravo para o sucesso das “relações comerciais estabelecidas entre os agentes econômicos do mate e o mercado internacional”. Um desses agentes sobre os quais se debruça é o “eminente ervateiro escravista—o Tenente-Coronel Caetano José Munhós”.

Analisando o caso individual de CJM, o autor parece magnificar a importância do trabalho escravo em seus engenhos. Pois consultando a documentação que integra o inventário de CJM ao qual, como ele, tive acesso (64), verifico que dos 10 escravos pertencentes a CJM aí arrolados (de acordo com a lista de matrícula oficial, e respectivas averbações, conforme o art. 2º do regulamento nº 4.835, de 1º de dezembro de 1871), só 4 foram declarados como trabalhadores dos engenhos. Os restantes prestavam serviço doméstico (v. detalhamento desses dados mais adiante, no capítulo 6, seção 6.7).    

CJM faleceu em julho de 1877. Logo em seguida iniciou-se o processo de seu inventário. E os engenhos, que ficaram a cargo da viúva, D. Narcisa, continuaram a produzir. A documentação do inventário contém os dados de produção, receita e despesa durante o período de agosto/1877 a julho/1878. Por essa documentação constata-se que nem todos os escravos referidos acima colaboravam agora com a produção (ao contrário do que deixa implícito o autor). Passados cinco anos, relativamente à época dos dados citados acima, havia apenas 5 escravos (e não 10) na relação de bens do espólio, que consta na peça inicial que abre o processo de inventário, datada de 30 de dezembro de 1877, e que seriam na sequência objeto de avaliação. É possível que, nesse interregno, CJM tenha vendido esses cinco outros, tendo em vista suas dificuldades financeiras e o fato de que os preços dos escravos vinham aumentando, devido à extinção do tráfico e à permanente demanda por mão-de-obra pela cafeicultura paulista. Dos 5 escravos arrolados, dois eram Luís e Ângelo (este nem constava na relação de 1872-3, logo CJM teria vendido 6 escravos e não 5). Luís, com setenta anos, é alforriado no próprio processo do inventário, de acordo com manifestação da vontade dos herdeiros contida nessa documentação, os quais assim procediam porque, segundo dizem, levavam em consideração os serviços que prestou e sua idade avançada.  Ângelo, de quarenta anos, é referido como “incapaz de qualquer serviço por ser muito doentio e aleijado de um braço”. Certamente por isso, sem ter valor comercial, não é avaliado. Só quatro dos cinco escravos foram então objeto de avaliação: Luís por 100 mil réis, João e Justo por um conto e duzentos mil réis cada um e Leocádia por 800 mil réis (avaliadores: Ignácio José de Moraes e o tenente-coronel Benedicto Enéas de Paula).

É verdade que havia também a contribuição temporária de escravos, como mostram os dados transcritos do “livro de assentos” de CJM.  Em 1870 e 1871 ele alugou escravos de terceiros. Então esse procedimento também pode ter sido utilizado para obter a produção que, de agosto de 1877 a junho de 1878, foi de 10.438 barricas e 800 surrões de erva-mate, num total de 11.238 embalagens.  Enquanto estes surrões foram vendidos integralmente ao Barão de Nácar, as barricas foram consignadas a Silva & Irmão (9.650 barricas, 92,4% do total) ou vendidas diretamente (788 barricas) a Joaquim A. de Araújo (marca Chilena), B.Munhoz da Rocha & Cª (sem marca) e outras firmas. 

Silva & Irmão, seu único consignatário, estava sediado em Montevidéu e  comercializava as ervas marca Amadeu, Munhós e Alfredo obtidas nos engenhos de CJM.

Eduardo Pena chega a uma produção dos engenhos de CJM de quase 832 toneladas, entre agosto/1877 e junho/1878, estimando uma média de 74 kg de erva por embalagem e considerando 11.238 embalagens, correspondentes ao total de barricas e surrões.

Para termos um referencial, relativamente à importância relativa dessa produção estimada dos engenhos de CJM (a única informação que obtive a respeito do nível produtivo total de seus engenhos), é conveniente registrar aqui a quantidade de mate exportada pela província do Paraná nos anos 1877, 1878 e 1879, que foram respectivamente de 13.209, 12.971 e 14.088 toneladas, segundo Romário Martins. Este alerta, contudo, que essas quantidades são subestimadas, pois não levam em conta “quantidades vultuosas do produto cancheado” que escapava pelas fronteiras da província com Santa Catarina, Rio Grande do Sul e República Argentina, haja vista a precariedade da fiscalização (65).

Multiplicando a quantidade produzida nos engenhos de CJM pelo preço da arroba citado no processo de inventário (3$400 réis), Pena obtém o faturamento de 188:586$600 réis no período, ao qual contrapõe o valor de 186:028$751, correspondente à despesa no mesmo período, informação também extraída do processo. Desse valor dispendido, a compra de erva representou 52% (CJM não possuía ervais, ao contrário de outros senhores de engenho). Os demais itens da despesa referem-se ao benefício, barricas etc, condução da erva até o porto, despesa com embarque, administração dos engenhos e custeio da casa e pagamentos diversos. Da diferença entre o valor do faturamento e a “larga soma” das despesas, o autor chega a um lucro “adquirido pelos Munhoz” de dois contos e quinhentos mil réis. Mas ele não adota o ponto-de-vista da movimentação financeira ocorrida. Considerando os saldos negativos transportados de exercícios anteriores, e incorporando outros itens à receita e despesa relativos à primeira quinzena de julho de 1878, chega-se a um déficit no balanço final do espólio de 7:514$481, dos quais 5:849$496 representavam dívida com Silva & Irmão. Certamente a excessiva dependência a esse consignatário, e outros fatores, explicam porque logo em seguida D. Narcisa -- em vez de prosseguir feliz num negócio lucrativo nos próximos anos, como pensa Eduardo Pena – foi obrigada a se desfazer dos seus engenhos, pouco tempo depois, para cobrir as dívidas. Não por acaso, quem passou a ser proprietária dos engenhos foi justamente a firma Silva & Irmão... D. Narcisa, quatro anos mais tarde, em 1882, abrirá uma escola subvencionada em Curitiba, tornando-se professora de primeira letras.


                                                 *

  Ermelino de Leão, no verbete dedicado a CJM de seu “Dicionário Histórico e Geográfico do Paraná”, inclui um depoimento pessoal sobre um incêndio pavoroso ocorrido no engenho da Glória:


   Fomos vizinhos do Coronel Caetaninho; e conservamos até hoje viva impressão do sinistro que contribuiu para o desaparecimento da sua fortuna.
O Coronel residia em uma vasta casa colonial, onde hoje (i.e. em 1926, ano da publicação do livro) existe a vivenda do Sr. Francisco F. Fontana; ao fundo da casa ficava o primeiro engenho movido por força hidráulica fornecida pelo rio Belém, que tinha represado e formado o tanque do Caetaninho. /.../
  Éramos muito criança (*), mas muito nos impressionou a demorada viagem do motor, do locomóvel (**) destinado ao engenho, que era uma novidade para a terra, pois só dois motores – o do Barão (do Serro Azul) e o do Cel. Caetaninho existiam em Curitiba, havendo outro anterior na Serraria da Companhia Florestal Paranaense, dirigida pelo Dr. Antônio Rebouças.
  Os operários do engenho eram todos escravos que durante o trabalho, somente vestidos com uma tanga de aniagem ou saco velho, apresentavam um aspecto curioso: à negra epiderme aderia um pó verde e as sobrancelhas, bigodes e cabelos cobriam de camadas  intensas de ouro-verde. 
   Em noite chuvosa, não muito depois da inauguração da nova fábrica, fomos despertados pelos brados de socorro e por um grande clarão que iluminava todo o Alto da Glória.
Era o engenho do Coronel Caetaninho devorado pelo fogo. Assistimos, de casa, ao pavoroso espetáculo que nos causou grande e viva impressão. No dia imediato, apesar da chuva o brazido fumegava ainda. Essa recordação de meninice ainda perdura.
Naquele tempo, o seguro não era medida usada pela previdência dos nossos homens. O prejuízo do incêndio foi avultadíssimo: casa, máquinas e grande stock de erva desapareceram na voragem das chamas devoradoras.
                       A situação comercial do importante industrial tornou-se insolvável.
O Coronel Caetaninho não pôde resistir ao golpe da adversidade por muito tempo (66).

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(*) Ermelino de Leão nasceu em 1871.
(**) Locomóvel: “Máquina de vapor sobre rodas” (dic. Aurélio).


Assim, na memória de Ermelino de Leão, CJM ainda vivia quando o incêndio ocorreu, o que é falso, segundo estou convencido. A memória no caso o traiu. O incêndio de fato ocorreu, mas CJM já havia falecido então, sendo portanto fantasiosa a associação de sua morte a esse “golpe da adversidade” (os equívocos de Ermelino de Leão – esse, e o do não reconhecimento da primazia de CJM na implantação de engenho a vapor em Curitiba, antes referido -- seriam repetidos por outros autores paranaenses, que nele se basearam ao se referir a CJM em seus escritos). Senão, vejamos:

O neto de CJM Alcides Munhoz não atribui a nenhum incêndio (que nem mesmo menciona) a explicação da situação financeira difícil da família após a morte de CJM, e sim ao fato de que ele foi vítima de consignatários. Alcides, em seu livro “Folhas Cadentes”, assim se manifesta sobre as relações de CJM com esses agentes econômicos:  

    Meu avô havia sido um homem de negócios.
  Julgava-se bem alicerçado no domínio de seus haveres. A morte repentina, porém, trouxera desilusão à sua família. O comércio do mate era feito à consignação para os mercados do Rio da Prata. O preço apurado na praça era o valor da mercadoria. Meu avô tinha grandes capitais empatados em erva-mate consignada. Os seus consignatários, porém, iludiram-no e quando pensava na solidez da fortuna os seus fregueses já o haviam espoliado pelo ajuste de contas.
    Assim, pela sua morte, a família teve que lutar com gravíssimas dificuldades (67).  


CJM sofria assim a dura realidade do mundo dos negócios (da qual foram poupados vários de seus filhos, por terem optado pelo serviço público, como veremos adiante). Corroborando o que disse Alcides Munhoz, foi o consignatário Silva & Irmão quem acabou se tornando dono dos engenhos de CJM...

Também o necrológio de CJM, publicado no DD de 28 de julho de 1877- p.3, afirma que ele, ao falecer, já havia superado a fase mais crítica de seus negócios, “sorrindo-lhe a fortuna justamente nos seus últimos anos de existência”.       

Quanto ao incêndio, vale ressaltar que, em nenhum momento, o “Dezenove de Dezembro”, no passado imediato (e mediato), anterior à morte dele, noticia qualquer incêndio ocorrido em seus engenhos, o que seria de esperar pela importância local de CJM e a magnitude do sinistro. Ele só é noticiado no DD de 1º de maio de 1879, p. 3, quase dois anos depois da morte de CJM. O incêndio que marcou tanto a memória da infância de Ermelino deve ter sido esse, relatado pelo chefe de polícia Luís Barreto Correa de Menezes em ofício dirigido ao presidente da Província Souza Dantas, transcrito na íntegra naquela edição do jornal (e integrante do acervo do Arquivo Público do Paraná onde o consultei) (68). Ocorreu, segundo Menezes, na madrugada de 27 de abril de 1879 no engenho pertencente, segundo aí se diz, ao major Bento Florêncio Munhoz (que era irmão e sócio de CJM). O incêndio

reduziu a cinzas aquela propriedade, dentro da qual existiam 110 barricas de erva beneficiada, 14 cestos de erva especial e 80 de qualidade inferior. Salvaram-se 45 barricas e 30 cestos de erva, e calcula-se o prejuízo em dez a doze contos de réis.

 O ofício prossegue afirmando que a cerca de 4 metros do engenho incendiado havia ”um prédio de madeira que servia de armazém de depósito pertencente ao mesmo Major Munhoz e dentro do qual se achavam 800 fardos de erva-mate.” O incêndio, que não se comunicou a esse prédio, “teve lugar a um quilômetro mais ou menos do centro da cidade, em um desvio da estrada pública /.../”

Assim, o incêndio a que se referiu Ermelino deve ter sido esse, que ocorreu na fase de transição do engenho da Glória para seus novos proprietários, o qual é mencionado por Newton Carneiro em “Um Precursor da Justiça Social”- Curitiba, 1965, p. 38, como tendo ocorrido em 27 de março de 1879 (e não em 27 de abril, conforme o documento que citei),“um dos incêndios que mais impressionaram o povo curitibano desse tempo”.

Os novos proprietários são citados nesta passagem do Boletim da Casa Romário Martins intitulado “Passeio Público: primeiro parque público de Curitiba”, que se apoia parcialmente na citação antes transcrita (e criticada) de Ermelino de Leão: 

   Quando o velho engenho hidráulico e residência de Caetano Munhoz, o “velho Caetaninho” 5 , situado no início do Atalho da Glória, foi devorado por um incêndio abalando a fortuna de seu antigo proprietário, a empresa Silva & Irmão resolveu adquiri-lo.
Essa última reconstruiu o engenho e passou a vender sua produção à empresa comercial uruguaia pertencente a Francisco Fasce Fontana. A ervateira Silva & Irmão estava com dívidas tão grandes, que Francisco Fasce Fontana veio a Curitiba para cobrá-las pessoalmente.
   Como já estava com intenção de mudar de ramo, tornou-se sócio da empresa, que passou a denominar-se Silva, Irmão & Fontana e, posteriormente, veio a pertencer somente a Fontana.
   Sua primeira tarefa foi transformar a fábrica num engenho moderno. Segundo Agostinho Veiga 6: “denominou as duas Fábricas do Alto da Glória de Fábricas Fontana, introduzindo melhoramentos com pilões em plano inclinado com carga e descarga automáticas. Conseguiu com isso expressiva fortuna (69).
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5  Conforme o depoimento de Agostinho Veiga, Caetano José Munhoz – avô de Alcides Munhoz e de Caetano Munhoz da Rocha – “foi um dos homens mais progressistas de seu tempo. Era proprietário de duas fábricas de beneficiar erva-mate, uma delas movida por força hidráulica, aproveitando as águas do rio Belém, e de uma represa dessas águas chamada de Tanque do Caetaninho /.../. Era proprietário de outro engenho de mate, este movido a vapor, sendo seu locomóvel o terceiro existente em Curitiba.” (70)

6 VEIGA, Agostinho. Comendador Francisco Fasce Fontana. Uma personalidade pouco conhecida. Texto manuscrito” (71).

O Boletim da Casa Romário Martins informa ainda, baseado no depoimento de Agostinho Veiga, que Francisco Fasce Fontana, na véspera de seu casamento com Maria Dolores de Leão, filha do Desembargador Agostinho Ermelino de Leão,

mandou derrubar os tapumes da reforma de sua fábrica, e apareceu transformada a velha chácara do velho Caetaninho, em excelente vivenda, cercada de parque, cortada por canais navegáveis por pequenas canoas. O banhadão que dominava a maior parte do terreno foi transformado num dos mais belos jardins de Curitiba (72).

  Um pouco antes desse parágrafo, o Boletim descreve como era a propriedade de Fernando Fasce Fontana antes dessa reforma (ou seja a chácara “do velho Caetaninho”):
             
segundo Agostinho da Veiga, era uma “fazendola”, pois “havia potreiros, para cavalos, reduto para vacas leiteiras, estábulos, cocheiras, quatro casas para operários, um pomar com árvores frutíferas, onde está o lado direito da atual Rua da Glória, bosques, rios, arruamentos, jardins, parques, etc”.(73)   

Em 16 novembro de 1879 o engenho de CJM ainda era chamado “da viúva Munhoz”, conforme demonstra este registro, extraído da p. 35 do relatório do Chefe de Polícia do presidente Manuel Pinto de Souza Dantas Filho, anexo ao seu próprio relatório de 16 de fevereiro de 1880:

No dia 16 deste mês, em um pequeno lago, na estrada da Graciosa, foi encontrado o suíço Ignacio Pelonchou, trabalhador do engenho de erva-mate da viúva Munhoz.            
Subsídios adicionais nos ajudam a mais bem visualizar a região da cidade em que se localizava tal engenho, como por exemplo o parecer, datado de  30 de novembro de 1880, dos engenheiros Francisco Antonio Monteiro Tourinho, José Bernardino Bormann e Francisco Clementino de Santiago Dantas, que constituíam uma comissão, designada pelo presidente João José Pedrosa, para elaborar um plano visando o dessecamento dos pântanos de Curitiba (74). Na parte inicial do parecer eles fazem esta caracterização da região junto ao rio Belém, antes da existência do Passeio Público (inaugurado em 1886):

   O arroio Belém é represado artificialmente nas proximidades do centro povoado em dois pontos-- perto da estrada da Graciosa (atual av. Cândido de Abreu) ao ocidente da 1a. curva que faz essa estrada e no prolongamento da rua do Serrito (atual rua Carlos Cavalcanti) junto do estabelecimento de Joaquim Bittencourt, a Este da cidade. Tais represas têm por fim aumentar o volume das águas e dar-lhes maior altura, a fim de serem utilizadas como motor de duas fábricas de erva-mate. 
   A primeira desvia parte da massa líquida do arroio de seu talweg natural e por uma vala, margeando a base das colinas próximas, e cortando a estrada da Graciosa, dirige um ramal até o engenho Munhoz. Daí a fração das águas desviadas pela vala a que nos referimos procura o leito primitivo em seu prolongamento, reúne-se à outra fração e todo o arroio atravessa a estrada que passa pela chácara do Dr. Ermelino, penetra nos terrenos baixos da parte Este da cidade e é represada de novo junto ao engenho Bittencourt.
   Desse ponto em diante serpenteando pela planície que o margeia segue o Belém até encontrar-se com o Ivo.
   Pelo exposto vê V. Exa. que há três seções a considerar na parte descrita desse arroio.
A que vai da primeira represa ao engenho Munhoz, a que daí segue ao engenho Bittencourt e a que se estende até o ponto de confluência do Ivo (negritei, DVE) 
    
No final de 1885, matéria intitulada “Higiene pública” publicada no “Dezenove de Dezembro” (75), reivindica uma atenção maior do presidente da província à região da cidade um pouco adiante do local onde CJM e depois Fontana se estabeleceram. Reivindica maior atenção para a região que se estende daquele local até o “tanque do Sr. Bittencourt” (onde hoje se situa o Círculo Militar), região essa banhada pelo mesmo rio Belém. Pelas referências que o jornal faz à situação do local, antes dos melhoramentos ali efetuados por Fontana, se avalia como deviam ter sido difíceis as condições enfrentadas por CJM para desenvolver suas atividades pioneiras, em Curitiba, no setor de beneficiamento da erva-mate. Afirma a matéria: 
   Desde a ponte situada no Boulevard 2 de Julho até o tanque do Sr. Bittencourt o referido rio Belém é muito estreito e sinuoso, de modo que permanentemente alaga os terrenos /.../ do que resulta ficarem convertidos em brejos de águas estagnadas /.../ convertem-se em focus de febres malignas, paludosas e intermitentes /.../
                 O DD reivindica assim o saneamento urgente dessa parte da cidade:
   Cremos oportuno lembrar nesta ocasião que a chácara do sr. Fontana que igualmente limita numa grande extensão com o mesmo rio Belém, do lado esquerdo da ponte, era antes de ser propriedade desse sr. um imundo pantanal, um brejo asqueroso mil vezes pior ainda daquele cujo saneamento hoje indicamos; e no entanto, devido aos esforços e trabalhos empregados pelo mesmo sr., está hoje convertida num lindíssimo jardim e pitoresco passeio. Feitos esses trabalhos, os pântanos de águas podres desapareceram para dar lugar a lindíssimos caminhos todos arborizados e a infinidade de pequenos rios que poetizaram ainda mais aquele lugar /.../  (negritei, DVE)

A ponte sobre o rio Belém no Boulevard 2 de Julho (atual av. João Gualberto) referida acima, inaugurada em 28 de julho de 1883, foi mandada fazer pelo Dr. Trajano Reis quando presidente da Câmara Municipal de Curitiba, que contratou para realizá-la Francisco Fasce Fontana (76). A denominação "Boulevard 2 de Julho" foi aprovada pela Câmara Municipal na sessão  de 25 de maio de 1883. Conforme a respectiva ata, foi denominada assim "a antiga rua onde existem as chácaras do Sr. Dr. Ermelino (de Leão, acrescento eu, DVE) e Fontana, e onde se acha em construção a nova ponte sobre o rio Belém" (77).   Considerando que a denominação ocorreu bem depois da morte de CJM (1877), ela não foi usada em seu tempo.

Na pesquisa realizada no “Dezenove de Dezembro” encontrei algumas referências à firma Silva & Irmão & Fontana mencionada antes. Essa sociedade de Fontana com os irmãos Silva persistiu, como se verá abaixo, até 6 de setembro de 1886, quando foi dissolvida formalmente.   











Residência dos Fontana (Fonte: Casa da Memória)

Em 1885, Silva & Irmão & Fontana enviou carta ao presidente da província. Nela, Francisco Fontana, representando a firma, atende ao apelo do presidente Brasílio Machado e confirma sua participação na exposição universal de Antuérpia, a ser realizada em maio (78) (no final do ano, o jornal registra um elogio do Ministério da Agricultura a Brasílio Itiberê da Cunha, secretário da legação do Brasil em Bruxelas, pela “organização e direção do compartimento brasileiro na exposição universal de Antuérpia” (79). Antes disso, consta no DD uma nota em que se destaca a contribuição do diplomata-compositor para a “propaganda da erva-mate naquele lugar”) (80). Também em 1885, Silva & Irmão & Fontana é signatária, dentre outros importantes “fabricantes de erva-mate”, numa representação encaminhada ao presidente da Província do Paraná contendo recomendações para enfrentar a crise por que passava o setor (81). O DD de 10 de novembro de 1885- p.3 publica anúncio de “Ilex-Mate Fontana (marca registrada) preparada exclusivamente nas Imperiais Fábricas de Silva & Irmão & Fontana por um sistema especial de máquinas patenteadas pelo governo imperial”. Ainda em 1885, o DD de 3 de dezembro desse ano, p.2, registra a presença em Curitiba do Sr. Joaquim Manoel da Silva, “chefe das importantes casas dos srs. Silva & Irmão & Fontana aqui estabelecidas e em Montevidéu”. Mas já no dia 6 o jornal informa que ele retornará naquele dia mesmo para o Rio da Prata (82).

Em maio de 1886 o DD reproduz notícias dos jornais de Montevidéu sobre o Ilex-Mate Fontana, cuja empresa fabricante era “Silva, Irmão & Fontana” (83).  Mas depois informa que em 6 de setembro foi dissolvida a sociedade comercial “que nesta praça girava sob a firma de Silva & Irmão & Fontana”. Francisco F. Fontana continua “a ocupar-se dos mesmos negócios da extinta firma, sob o seu próprio nome e responsabilidade”. O DD transcreve carta-circular de Montevidéu em que se informa que Joaquim Manoel da Silva e João M. da Silva agora mantêm a firma Silva & Irmão (como antes). Os dois informam também, juntamente com Francisco F. Fontana, que dissolveram “de comum e amigável acordo, desde 6 de setembro do corrente ano, a sociedade que girava nesta praça e na de Curitiba sob a firma de Silva & Irmão & Fontana” (84). 

Segundo Samuel Guimarães da Costa, cem anos depois de CJM implantar o seu Engenho da Glória, ocorreu a fusão da firma de Francisco Fasce Fontana -- seu então proprietário -- com a do Barão do Serro Azul, as Fábricas Tibagi-Ildefonso, fundada em 1874, resultando daí as Fábricas Fontana S.A., constituída em 1934. De acordo com o mesmo autor,

   Na década dos anos 60, sob a liderança de Fábricas Fontana S.A., foi constituída a empresa Moinhos Unidos Brasil Mate S.A., da qual passariam a fazer parte algums tradicionais firmas ervateiras, entre elas David Carneiro & Cia S.A.-Industrial e Agrícola, B.R. de Azevedo & Cia Ltda, José Lacerda & Cia Ltda, e outras, dada a impossibilidade de sobreviverem individualmente num mercado que diminuía a cada ano a olhos vistos (85).

Para concluir este capítulo, gostaria de salientar que, embora os filhos de CJM não tenham permanecido no setor ervateiro (e nem mesmo no setor privado, com exceção de José Caetano), muitos dos nomes citados no livro “Fasmas Estruturais da Economia do Paraná”, ou no “Dicionário Histórico-Biográfico do Estado do Paraná”, como representantes destacados da “economia do mate”, possuíam vinculações familiares com CJM. Senão, vejamos: sua filha, Carolina, casou-se com um filho de Vicente Ferreira da Luz, estabelecido no Barigui; outra filha, Maria Leocádia, casou-se com o cel. Bento Munhoz da Rocha, irmão do cap. Florêncio Munhoz da Rocha, ambos seus sobrinhos (filhos de sua irmã Maria Lícia); também a filha mais nova, do segundo casamento, Maria, casou-se com Jordão Mäder. Outros proprietários de engenho de mate foram Mathias Taborda Ribas, cunhado de CJM, marido de sua irmã Balbina; Zacarias de Paula Xavier,   irmão de sua 2ª esposa, D. Narcisa; Manoel de Oliveira Cercal, estabelecido em Campo Largo, tio de CJM, casado com Maria, irmã de seu pai; Bento José de Siqueira, outro tio, marido de Francisca, estabelecido em Morretes em 1852. Devemos lembrar ainda do sogro de CJM, João Gonçalves Franco, um dos pioneiros da instalação de engenhos “serra acima”, que recebeu concessão da Câmara Municipal de Curitiba em meados da década de 1830, além naturalmente de seu irmão (e sócio) Bento Florêncio Munhoz. Outro ervateiro a ser lembrado é o filho de João Gonçalves Franco, Manoel de Oliveira Franco, irmão de D. Francisca, a 1ª. esposa de CJM, que também tinha engenho em Curitiba em 1852 (86).




Bento Munhoz da Rocha e seus filhos 

NOTAS

(1) MAGALHÃES Filho, Francisco-- “Evolução Histórica da Economia Paranaense”- p. 31-52 in Revista Paranaense de Desenvolvimento nº 28- Curitiba, jan/fev 1972- p.40. Alguns fatores que adicionalmente contribuíram para tornar mais promissor o mercado para a nossa erva, por afetarem a exportação da erva paraguaia, tradicional supridora dos mercados platinos, foram a decadência das reduções organizadas pelos jesuítas (que foram expulsos da América espanhola em 1768), a política governamental adotada pelo Paraguai relativamente ao mate (em 1813, o ditador Francia, no poder de 1813 a 1840, proibiu que o país exportasse mate) e a Guerra do Paraguai (1864-70) (cf também os trabalhos citados abaixo de Cecília M. Westphalen, Ruy C. Wachovicz, Pedro C. Padis e David Carneiro).

(2) O artigo de José Augusto Leandro, que sintetiza suas pesquisas em “documentação jurídica ainda não explorada sobre o tema do tráfico de escravos na praça local, como autos de ratificação de protesto marítimo”, está disponível em:
 
(3) Cf site, acessado em 27.09.11:

  (4) MAGALHÃES Filho, Francisco-- “Uma Sucessão de Economias”- p.1-3 in “Referência em Planejamento” ano I, nº 3- Curitiba, 3º trim. 1976, p.2  

  (5) WACHOWICZ, Ruy Christovam—“História do Paraná”- 6ª. ed.- Curitiba: Ed.Gráfica Vicentina, 1988- p. 127-128

(6) MAGALHÃES Filho, Francisco-- “Evolução Histórica...”, op cit, p. 40. Romário MARTINS, em “Ilex-Mate”, inclui um vocabulário relativo aos termos mais usados no setor ervateiro. A sapeca ou sapeco é definida como a “Ação de passar os ramos da erva-mate por uma tostagem prévia antes de os secar no carijo ou no barbacuá”. Carijo é o “Varal ou jirau sobre o qual se colocam os galhos e ramos da erva-mate, com fogo constante por baixo, para completa secagem”. Pode ser coberto ou não. Barbacuá é o “Quadrilátero ou quadrilongo de paredes em geral de tijolos, ladrilhado do mesmo material, minado por tubos condutores de calor e munido em toda a sua extensão de andaime para encarijamento. Este aparelhamento  fica sempre ao abrigo de um galpão”.  Por fim, chama-se cancheada a  “Erva seca e fragmentada em cancha, pronta para receber, nos engenhos, o último benefício industrial” (Sobre a cancha, o autor afirma que no sistema primitivo “é um simples pedaço de chão capinado e batido, onde a erva carijada é triturada a bordoada”; num outro sistema, “mais generalizado e introduzido com o barbaquá, se constitui de um circo de cerca de 5 metros de diâmetro, assoalhado, onde a erva é triturada por malhador mecânico”) (cf. MARTINS, Romário- “Ilex-Mate: Chá Sul-Americano”. Curitiba: Empresa Gráfica Paranaense, 1926- p.130-132 e 140). David Carneiro  resume o processo produtivo do mate, referindo-se às três fases iniciais, após a coleta: sapeco (para a cristalização da seiva),secagem (nos barbaquás ou nos carijos) e ao cancheamento ou trituração. Depois, a erva cancheada “passa aos  moinhos, nas cidades. Aí sofre novas triturações, separações em peneiras mecânicas de abanador central e mistura sob controle sistemático” (cf. CARNEIRO, David—“Fasmas Estruturais da Economia do Paraná”. Curitiba: Imprensa da Universidade do Paraná, 1962- p.87-8).   

(7) LOPES, José Carlos Veiga-  “Os Caminhos”- p. 32-33 in “Referência em Planejamento” nº 3, op cit

(8) LINHARES, Temístocles—“História Econômica do Mate”, op cit, p.170

(9) Segundo CARNEIRO, David--“Fasmas Estruturais da Economia do Paraná”, op cit, p. 102, foi  Alzagaray  quem “ensinou nossa gente a sapecar, secar e canchear”, residindo aí aparentemente a sua maior contribuição. 

(10) SANTOS, Antônio Vieira dos—“Memória Histórica de Paranaguá”, op cit, v.I, p. 391 

(11) WESTPHALEN, Cecília M.— “Porto de Paranaguá, um Sedutor”, op cit, p. 165

(12) LINHARES, Temístocles—“História Econômica do Mate”, op cit, p. 170

(13) Ibid., p. 238

(14) WESTPHALEN, Cecília M.— op.cit., p. 240. O engenho de Fidelis José da Silva Carrão & Cia, associado a José Inácio de Loyola, localizava-se na rua Inácio Lustosa esquina com Mateus Leme, segundo TREVISAN, Edilberto—“Quando a Província Nasceu”. Curitiba: Gráfica Vicentina, 1998- p. 169. 

(15) WESTPHALEN, Cecília M.--- op. cit., p. 241 e nota 65, na p.286

(16) PADIS, Pedro Calil—“Formação de uma Economia Periférica: O Caso do Paraná”.S.Paulo: Hucitec; Curitiba:Secretaria da Cultura e do Esporte do Estado do  Paraná, 1981- p. 42 e 44

(17) MAGALHÃES, Filho, Francisco—“Evolução Histórica...”, op cit, p. 40. Sobre a área da erva-mate, escreve David Carneiro: “No Paraná, a verdadeira zona de produção é o vale do Iguaçu: Curitiba, Lapa, Rio Negro, São Mateus, Irati, União da Vitória, Guarapuava, Palmas, Clevelândia,  Foz do Iguaçu. Também Palmeira, Imbituva, Guaragi, etc...”  (CARNEIRO, David—“Fasmas Estruturais da Economia do Paraná”, op cit, p.90. Esse mesmo autor cita antes, na p. 86, esta observação de Saint-Hilaire, que por aqui andou em 1820: “O mate constitui para Curitiba produto importante de exportação. A árvore é comum nos matos que circundam a cidade, principalmente nos da Borda do Campo /.../”).   

(18) CARNEIRO, Newton—“Um Precursor da Justiça Social- Davi Carneiro e a Economia Paranaense”. Curitiba, 1965- p. 26-7.

(19) WESTPHALEN, Cecília M.— op.cit., p.191 (nota 35)

(20) CARNEIRO, David—“Fasmas Estruturais da Economia Paranaense”, op cit, p. 103

(21) Apud WESTPHALEN, Cecília M.—op. cit., p. 246

(22) DEAP- “Correspondência do Governo”- v.06, AP 0007 (ofício de CJM ao Cons. Zacarias datado de 8.10.1854). Cf também DD de 4.11.1854- p. 2.  

(23) MARTINS, Romário—“Ilex-Mate”, op cit- p. 283-4.

(24) DD de 14.05.1856- p.2 e DD de 21.05.1856, p. 3

(25) WESTPHALEN, C.M.- op.cit., p. 260 e nota 137 à p.292

(26) DD de 23.04.1856- p. 4; DD de 2.03.1861-p.2 

(27) WESTPHALEN, Cecília M.— op.cit., p. 169

(28) NEGRÃO, Francisco-- “Genealogia Paranaense”- op cit, v.I, p. 237

(29) SOARES, A.J. de Macedo-- “O Mate do Paraná”- Notícia escrita e oferecida à Comissão Central da Exposição do Paraná”. Rio de Janeiro: Tipografia do Imperial Instituto Artístico, 1875- p. 28. 

(30) COUTY, Louis—“Le Maté et les Conserves de Viande” – Rapport à son Excellence Monsieur le Ministre de l’Agriculture et du Commerce par le Dr. Louis Couty sur la mission dans le provinces du Paraná, Rio Grande et les États du Sud”. Rio de Janeiro: Typografia Nacional, 1880- p.41

(31) COUTY, Louis- op. cit., p. 71

(32) DD de 15.06.1864- p.2

(33) DD de 18.06.1864- p.2

(34) DD de 31.08.1870- p. 2

(35) DD de 27.08.1870- p. 1

(36) DD de 3.09.1870- p.1. O ofício de CJM encaminhando as amostras de erva-mate ao vice-presidente Agostinho Ermelino de Leão encontra-se no Arquivo Público do Estado (“Correspondência do Governo” v. 016, AP 339, p. 083) 

(37) DD de 24.08.1870- p. 3

(38) DD de 3.05.1876- p. 1

(39) DD de 12.06.1872- p.3.

(40) LEÃO, Ermelino de—“Dicionário Histórico e Geográfico do Paraná”, op cit, v.I,p. 247. Cecília Westphalen afirma que Ildefonso Pereira Correa transfere-se de Antonina para Curitiba em 1878 (cf. “Porto de Paranaguá ...”, op.cit., p. 167). É o que diz também David Carneiro: “Fundou em 1874 seu engenho de Antonina, transportando-o em 1878 para Curitiba” (cf. “Fasmas Estruturais da Economia do Paraná”, op cit, p.115).

(41)  CARNEIRO, David—“Fasmas Estruturais da Economia do Paraná”, op cit, p. 107.

(42) WESTPHALEN, Cecília M.—“Porto de Paranaguá...”- op.cit, p. 166. Cf. também Linhares, Temístocles—“História Econômica do Mate”, op cit, p.236
Encontrei no Arquivo Público do Estado (“Correspondência do Governo” v.008, AP 060, p. 089) um ofício da Tesouraria Provincial do Paraná datado de 10 de julho de 1858 e dirigido ao presidente da província Francisco Liberato de Mattos que encaminha informação sobre o requerimento de Manoel Antonio Pereira Alves e João Antonio Pereira, no qual “os mesmos, declarando-se inventores de uma máquina de moer e preparar a erva-mate movida a vapor, pedem o prêmio que se acha consignado em uma lei provincial a quem estabelecesse um semelhante meio de melhorar esse ramo mais importante  do comércio e riqueza da Província”.  Já vimos antes que Manoel Antonio Pereira fez parte da comissão, instituída em 1854 pelo Conselheiro Zacarias, para dar parecer sobre a forma mais eficaz de impedir a falsificação da erva-mate.  
 
(43) DD de 30.10.1872- p. 3

(44) LINHARES, Temístocles—“História Econômica do Mate”, op cit, p.335

(45) DD de 28.061873- p.3; DD de 6.03.1875- p.4

(46) DD de 31.03.1875- p. 2

(47) DD de 13.04.1878- p.4 (cf. também o DD de 30.09.1874- p.4).

(48) DD de 4.03.1876- p.4 e DD de 13.04.1878- p.4

(49) DD de 5.04.1876- p.2

(50) DD de 3.03.1875, p.2. Cf também o relatório do presidente Frederico José Cardoso de Araújo Abranches, apresentado na Assembleia Legislativa Provincial, em 15.02.1875, p. 31-32, disponível, como outros relatórios de governo, no site do Arquivo Público do Paraná.

(51) Cf. também DD de 17.03.1875-p.1  

(52) DD de 25.09.1875- p.2; DD de 13.10.1875- p. 1

(53) DD de 5.04.1876- p.2  

(54) DD de 9.10.1875- p.3

(55) DD de 26.02.1876- p. 3

(56) DD de 26.04.1876- p.4; DD de 12.05.1877- p.4

(57) DD de 31.05.1876- p.3

(58) DD de 25.09.1875- p.2-3 

(59) DD de 26.02.1876-p.3. Nessa casa foi inaugurado o Museu Paranaense em 25 de setembro de 1876, que em 1880 recebeu a visita de D.Pedro II e comitiva.  Em 1900 o museu transferiu-se para o prédio que sediara antes a Assembleia Provincial, situado na esquina da atual rua Dr. Muricy com Cândido Lopes, tendo ali permanecido até 1913, quando se transferiu para outro local- (cf CORRÊA, Maria Celeste e KOCH, Zig-- “Museu Vivo: Guia Ilustrado da História do Paraná”. Curitiba: Zig Fotografias, 2007- p. 8-9)

(60) DD de 13.05. 1876- p.2

(61) DD de 6.12.1885- p.2

(62) CARNEIRO, David--“Fasmas Estruturais da Economia do Paraná”, op cit, p. 100.

(63) PENA, Eduardo Spiller-- “O Jogo da Face”: a astúcia escrava frente aos senhores e à lei na Curitiba provincial”. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1999- p.83-86.

(64) O inventário de CJM encontra-se arquivado na 11ª. Vara Cível, Fórum de Curitiba.
(65) MARTINS, Romário—“Ilex Mate”- op.cit., p. 250-251. Cf. também PADIS, Pedro Calil—“Formação de uma Economia Periférica: O Caso do Paraná”, op cit, p.65, que apresenta a série histórica da quantidade exportada de mate para o período 1867-1931. “Ilex-Mate” contém alguns dados estatísticos sobre a exportação de mate para o exterior, discriminando os destinos-- Buenos Aires, Montevidéu e Valparaíso (em 1848-49 a quantidade total exportada foi de 5.500 t). Considerando toda a série histórica e a importância de cada destino quanto à quantidade exportada, o porto de Buenos Aires situa-se em primeiro lugar, seguido pelo de Montevidéu e depois deste, Valparaíso. Por outro lado, em 1835, pouco depois de CJM instalar seu engenho da Glória, o porto de Paranaguá exportou 84.602 arrobas (ou 1.269 t) para fora do Império, conforme WESTPHALEN, Cecília M., em “Porto de Paranaguá, um Sedutor”, op cit, p.513 e 519. Na p. 520, ela informa que em 1879 o porto de Paranaguá exportou 495.291 arrobas (ou 7.429 t) para fora do Império, não sendo disponível a informação da quantidade exportada para dentro do Império. Essa autora alerta que os dados que cita referem-se ao exercício iniciado em 1º/7 e encerrado a 30/6 seguinte. “O Paranaense” de 8.2.1880, p. 4, publica um quadro-resumo dos dados relativos às exportações de erva-mate em 1879, que atingiu 14.088 t, efetuadas não só pelo porto de Paranaguá mas também pelo de Antonina. Desse total, 63% dirigiram-se ao porto de Buenos Aires, 28% ao de Montevidéu e 9% ao de Valparaíso. Essa quantidade foi exportada em 88.870 barricas, 83.736 surrões e 21.029 cestos (vê-se por aí que o nº de barricas de pinho já superava então ao de surrões). As exportações foram transportadas em 115 navios, dos quais 55 a serviço de Ildefonso Pereira Correia & C. (que exportou 50% do total) e 29 a serviço do Barão de Nácar (que exportou 25%). Estes foram os dois maiores exportadores, cabendo à firma do Barão do Serro Azul, como se vê, a primazia.   

(66) LEÃO, Ermelino de – “Dicionário Histórico e Geográfico do Paraná”, op. cit., v. I, p. 247-8 (a ed. original é de 1926).

(67) MUNHOZ, Alcides—“Folhas Cadentes”, op cit, p. 47

(68) DEAP- “Correspondência do Governo”- v. 6, AP 565, p. 265-6. A “Província do Paraná’ de 3.05.1879- p.3  também noticia o incêndio, ocorrido em 27 de abril, no engenho “de propriedade da  viúva Munhoz”. A edição desse jornal de 12.09.1879- p.1 transcreve o mesmo relato feito pelo Chefe de Polícia ao Presidente da Província.  

(69) FUNDAÇÃO Cultural de Curitiba- “Passeio Público: primeiro parque público de Curitiba”- Boletim Informativo da Casa Romário Martins- v. 28 nº 126 ago.2001 (conforme errata)- p.38

(70) “Passeio Público: primeiro ...”, op. cit., p. 178

(71) Ibid., p.178

(72) Ibid., p.39

(73) Ibid., p.39

(74) Relatório do presidente João José Pedrosa apresentado na Assembleia Legislativa Provincial em 16.02.1881, p.22 a 27. Cf. também DD de 15.12.1880- p.2 e DD de 18.12.1880- p. 2

(75) DD de 27.12.1885- p.3

(76) DD de 7.07.1883-p.2; DD de 8.08.1883- p.2

(77) DD de 8.08.1883- p. 2

(78) DD de 4.01.1885- p.3

(79) DD de 22.12.1885- p.2
 
(80) DD de 2.12.1885- p.2
(81) DD de 12.05.1885- p.2
(82) DD de 6.12.1885- p.2
(83) DD de 22.05.1886- p. 2-3
(84) DD de 7.01.1887- p. 3; DD de 17.12.1886-p. 2
(85) COSTA, Samuel Guimarães da—“A Erva-Mate”. Curitiba: Coleção Farol do Saber, 1995- p. 109-110

(86) CARNEIRO, David—“Fasmas Estruturais da Economia do Paraná”- op cit, p.104-106. “Dicionário Histórico-Biográfico do Estado do Paraná”, op cit, p.133. Cf. também NEGRÃO, Francisco—“Genealogia Paranaense”- op cit, v.I- p.203, 255-256. 

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